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17.1.11

Quase Duzentos e Setenta Dias Dentro da Mamãe: Quarta Parte – (2): aspectos emocionais relacionados aos sintomas gravídicos


Quase Duzentos e Setenta Dias Dentro da Mamãe Quarta Parte – (2): aspectos emocionais relacionados aos sintomas gravídicos

Como comentamos anteriormente, a gestação favorece que de alguma maneira “retornemos” a fases primitivas de nossa infância e até mesmo de nossa gestação, enquanto filhas e as lembranças dessa fase surgem em nosso subconsciente, permitindo que nos identifiquemos com nosso bebê no ventre materno. Essas experiências podem ser associadas a alguns sintomas que a grávida expressa durante a gestação. O que dizer das náuseas ..., não é nada fácil conviver com elas durante o primeiro trimestre. É como se desejássemos incorporar o mundo pela boca e este prazer nos é negado tão avassaladoramente, será que existe explicação para isso? É de ordem emocional, hormonal, mecânica/ seja lá o que for, incomoda e nos deixa desoladas, não é mesmo ... Algumas referências científicas apontam a progesterona como a vilã do negócio ou mesmo a gonadrotofina coriônica humana. Citações da área emocional relatam as náuseas e os vômitos como expressão do inconsciente da futura mãe tentando expulsar a mãe interna como tentativa de tornar-se mãe. Confuso, não? O resultado de tantas informações é que os sintomas apresentados pela gestante podem expressar coisas do inconsciente, como conflitos não resolvidos, eventos não ditos, eventos traumáticos vividos e não falados e/ou recordados. O que precisa ficar claro é que nem tudo é hormonal e nem tudo é emocional. Os vômitos persistentes poderiam ser entendidos como o não direito a expressão de conflitos e sentimentos. Assim, a única forma de expor as “crueldades emocionais” oprimidas e não digeridas seria por meio do vômito. O vômito seria a palavra silenciada e amordaçada na garganta. É claro que a incidência dos vômitos repetitivos (ou também conhecido como hiperemése gravídica) são menos evidentes na atualidade, quer pela maior expressividade da mulher no seu meio social, médico, quer na procura de auxílio psicológico. E os desejos na gravidez? O que falar sobre eles? Será que existe alguma lógica? Será verdade que o desejo da mulher não satisfeito durante a gestação poderia ocasionar alterações no bebê? Alguns relatos de literatura contam, ou pelo menos associam os desejos a um período onde a mulher recebia mais atenção de seu companheiro e de seus familiares e os desejos eram o reflexo da busca por atenção e carinho. Outros estudos apontam para uma forma indireta da mulher chamar a atenção de seu homem sobre o futuro filho e dessa maneira introduzi-lo precocemente na consciência do futuro Pai. Penso que nos dias atuais, o desejo por coisas “diferentes” não é mais tão valorizado. O pai vivencia a gravidez de sua companheira desde cedo, compartilha ansiedades e angustias junto da gestante em consultório obstétrico e terapêutico. As coisas são mais as claras e quando não são, a mulher de hoje tem mais voz ativa, ou pelo menos, penso que a maioria possui. Não querendo ser emotiva ou piegas, mas ter algum desejo durante a gestação e o ver realizado é a sintonia da atenção e do afeto – do cuidado e da reciprocidade. Outra forma de entender os desejos estaria centrada na linguagem relacional mãe-filho. Quando a gestante “sonha” com um limão bem azedo sobre uma manga com sal, ela pode estar dizendo que seu filho precisa de vitamina C, seu sangue precisa manter a volemia e por isso o sal é importante e que os antioxidantes presentes na fruta amarela, auxiliam seu organismo a trabalhar melhor e corresponder as necessidades de seu bebê. É a futura mamãe já satisfazendo as demandas de seu filhinho. É o estabelecimento de uma linguagem não verbal, mas que pode ser entendida intimamente entre a dupla mãe-bebê. Durante o primeiro trimestre gestacional, os sintomas como, náuseas, apetite voraz ou reduzido, hipersônia, insônia, etc. poderiam estar como num espelho embaçado após um banho aquecido, refletindo entre a fumaça, a mulher remetida à sua própria história e tomada pela repetição da mesma – a história de sua mãe (emaranhada pelos conflitos). Poderia ainda estar ocorrendo o fenômeno da antecipação – a gestante como num laboratório de atores, simula as vivências do futuro como forma atenuada de viver o amanhã. E o que falar da hipersensibilidade emocional da gestante. Choros incontroláveis, momentos de intensa emoção, olhos marejados diante de cenas tão inusitadas são de causar espanto a qualquer cidadão. Principalmente se este cidadão nunca ficou grávido (homem ou mulher). Para alívio de muitos, do mesmo modo que a sensibilidade vem, ela vai embora. Maluco, não? Não se entendermos que este período é ressoante com os primeiros meses do bebê após seu nascimento. É como se as lágrimas da mãe, no início da gestação, a preparasse para entender a única linguagem do bebê nesse comecinho de vida – o choro. Parece que desde cedo as mães constroem ou tecem um “dialeto emocional” para se comunicarem no futuro com seus filhinhos. Acho que é a sábia natureza agindo sobre as vidas que se entrelaçam. A hipersensibilidade emocional dessa fase da gestante também pode ser vista como o luto da gestante em deixar somente seu papel de filha para transformar-se em mãe – mãe de seu futuro bebezinho e acho que essa não é uma missão nada fácil. Bem, gostaria de finalizar este trimestre fazendo algumas considerações sobre o pai. Como fica o pai neste contexto “glamuroso” de sintomas em sua companheira? O pai pode sentir-se confuso. Minha mulher está doente? Esses sintomas gravídicos são normais? Será que eu-pai tenho alguma culpa? Penso que muitos homens apresentam algumas dificuldades para compreender o que passa com sua companheira. Muitos deles acreditam que devem ser fortes e para tanto negam os sintomas de suas mulheres, provocando crises no relacionamento e sentimento de abandono e desamparo nas gestantes. É importante considerar que novas relações estarão se estabelecendo durante o ciclo gestacional e o casal deve estar aberto para isso. Inquietude, angustias e ansiedades permearão este período, porém compreensão e companheirismo facilitam o processo de “tricotagem” e o resultado será surpriendente se os sentimentos forem revelados, amparados e acolhidos com serenidade. Em nosso próximo encontro, entraremos no segundo trimestre. Até lá.

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