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29.5.17

O papai se ausentou e agora?



Até pouco tempo, as pessoas acreditavam, que as crianças criavam uma relação muito íntima com suas mães, e, que os pais seriam secundários nesse processo. Isso não é de tudo verdade, mas tem um fundo de realidade.
De início, os bebês são muito conectados com as suas mães e dependem dela para tudo: mamar, higiene, aprender sobre o ambiente que os circunda, afeto, emoções, entre outras funções. Tanto isso é verdade, que é impossível pensar num bebezinho sem logo associá-lo a sua mãe. Todavia, desde o início da vidinha do bebê, o pai também tem uma função primordial, não só de acolher ao filho, mas também proteger a mãe, para que ela se dedique de corpo e alma ao bebê, e, também, de pessoas que adoram dar palpites e sobrecarregá-la com “conselhos” e cobranças.
Bem, vamos voltar a falar de ausência paterna. Por vezes, o pai precisa viajar ou se ausentar a trabalho, e, os familiares pensam que por que a criança ficou com a mamãe ela não sofrerá, ou, se ressentirá da distancia do pai. Precisamos lembrar que a criança pequena ainda é inundada com pensamentos concretos e o abstrato passa longe. Falar para um pequeno que o papai volta logo não pode ser entendido por ela como algumas horas ou poucos dias. Para um pequenino dias podem significar semanas ou muito mais.
É função do pai, caso ele precise se ausentar por qualquer motivo, chamar seu filho e comunicar a necessidade de seu distanciamento e deixar claro para a criança, que ele estará pensando nele com muito carinho e amor. Assim como o pai está sendo claro e verdadeiro em seu discurso, a mãe também precisa assegurar a cabecinha do filho, que o papai não sumiu, que ele continua existindo, que a ausência dele é temporária.
Não exija demais do pequeno, se no retorno do papai, ele fizer cara feia, esconder o rosto, for para o quarto ou não der bola para ele. O comportamento dos pais precisa ser o mais natural possível – em breve a criança volta a se aproximar carinhosamente do pai, a se interessar pelas novidades, ou, pelo mimo, que o papai se lembrou de trazer para ele.
Não se admire se com a chegada do papai a criança não saltar no colo, não enchê-lo de beijos e abraços. Os pequenos costumam mostrar seu amor e saudades oferecendo seus brinquedinhos, seus bichinhos de pelúcia ou bonecos preferidos.
O pai não deve esquecer, de receber a atitude do filho com muito amor, e, de enfatizar, que se sente muito feliz em vê-lo, de poder brincar com os brinquedos queridos. Para os pequenos é muito bom ver que aquilo que lhe causa interesse (os brinquedos) também causa interesse e tem importância ao papai. E nesse vai e vem de proximidade e carinho, o retorno do papai vai sendo alimentado por uma relação de proximidade, confiança e de muito afeto positivo.
Caso o papai tenha que se ausentar novamente, o filho entenderá que ele vai, mas volta!
No caso das crianças maiores, a mamãe pode fazer uso de um calendário, e, junto com a criança, marcar os dias que o papai está ausente, e, dessa maneira, mostrar de forma concreta, quanto tempo falta, para o papai chegar.
Falar sobre o pai em sua ausência e de maneira positiva ajuda a fortalecer a confiança, a esperança de que logo as coisas voltam a ser como antes. Mais um lembrete, a mãe não deve usar a ausência do pai como objeto de chantagem: “Se você não fizer isso ou fizer aquilo errado vou contar para ele!”
A mãe que age de maneira a chantagear a criança, na ausência do papai, na verdade está ajudando a criar sentimentos conflitantes do filho em relação ao pai, e, a temer pelo seu retorno. Algo que poderia ser muito positivo se transforma em algo temeroso. Imagine como fica a cabecinha dessas crianças! Socorro!
A criança precisa ver o pai, mesmo nos períodos de ausência, como um parceiro da mãe, que ele tem a função, assim como a mãe, de participar igualmente de sua educação.



15.5.17

Bons motivos para receber os bebês sem “noias”



     
Gostaria de falar sobre as particularidades de cada família em relação à chegada de um bebê, mas aqui não há espaço para isso. Assim, vou comentar de maneira genérica, porém, com muito carinho e atenção, sobre as “noias” (paranoias) que experienciamos com a vinda de um pequenino ao seio familiar.
A chegada de um novo membro na família, pode trazer “um certo” estresse, principalmente, quando os pais são pais de primeira viagem, ou, apresentam um desejo interno e "irrevelável" sobre a preferência do sexo do bebê. Algumas mães ou pais gostariam que o primogênito fosse do sexo masculino e quando o oposto acontece, decepções podem vir a tona, mesmo que de maneira velada. Cada um tem sua preferência pautada em suas histórias ou conflitos familiares. Ótimo para quem não pensa assim – uma dificuldade a menos.
Até o momento estou me dirigindo aos pais, mas o mesmo pode acontecer com os avós. Alguns avôs, que atendi em sessão familiar, referiam que seu primeiro neto deveria ser um menino, assim a “profissão” ficaria na família (médico, advogado, engenheiro, etc). Acredite, existem avós que preferem um neto para dar continuidade ao nome da família.
O “drama” não para por aí! O nascimento de um bebê pode desorganizar a cabecinha do filho mais velho. Ele precisa de um tempo para se ajustar a nova configuração familiar. Quando a criança é pequenina, entre 1 e meio ou 2 aninhos, dificilmente ela esboça propriamente o ciúme. Ela encara o irmãozinho como um brinquedo animado.
As coisas se complicam mais, quando a criança é maior, entende claramente seu lugar na família e o quanto ela é agraciada por isso. Não é fácil para o filho mais velho perceber, que o “novo membro familiar” é uma gracinha, pequenininho, fofo, que detém a maior parte da atenção da família nuclear, dos parentes e dos amigos. Haja coraçãozinho! Acho que elas pensam “como alguém pode admirar uma pessoa menor que eu?”. “Como alguém pode curtir um ser que faz muito menos coisas do que eu?”. “Como alguém pode querer ficar perto de alguém que chora periodicamente e ainda faz suas necessidades na frente de todos e na roupinha?”
O que estou querendo comentar é que para o primogênito, talvez fosse mais fácil se os bebês já nascessem grandinhos e pareados para possíveis comparações. Nesse aspecto não são só os filhos mais velhos que precisam de ajuda. Os pais também! Os pais necessitam de uma rede de apoio para ingressarem em mais uma nova jornada familiar: a expansão da família.
Por vezes, o filho mais velho muda seu comportamento com a chegada do bebê, e grande parte das pessoas, associa isso ao ciúme, a birra, ou, a “ataques” de capricho infantil. Pensar dessa maneira é uma forma linear de não levar em conta as emoções e sentimentos do primogênito, ou, até mesmo seu estado físico. Certa vez, atendi uma mãe, que reclamava, que seu filho de 3 anos não queria ir para a escolinha, que todos os dias, na hora de colocar o uniforme era uma briga – põe a calça – tira a calça. Isso se repetia umas “duzentas vezes”, até a criança se dar por cansada e aceitar o uniforme, e, os pais estarem a beira de um ataque de nervos.
Todos achavam que ela estava fazendo birra, ou, querendo chamar a atenção, devido à chegada do bebê.
Ledo engano!
Em sessão familiar esse evento (põe e tira o uniforme) veio à tona e o pequeno disse, por meio lúdico (fantoches), que odiava por o uniforme da escola, pois, ele era quente e que transpirava demais.
Resumo da ópera, aquilo que traduzimos como birra, ou, a criança estar tentando chamar a atenção dos pais, nem sempre é o que parece ser. Precisamos ter bom senso, ouvir, ver e dar espaço para o irmãozinho mais velho se pronunciar, quer por meio da palavra objetiva, quer por meio de expressões lúdicas! Deve sempre haver um bom motivo para as reações humanas. Nem sempre elas aparecem de maneira clara, mas vale a pena pensar e não polemizar. As crianças são mais simples do que parecem!

1.5.17

Amamentação




Quem disse que amamentar é difícil?
Amamentar é só colocar o peito para fora e encaixar o bebê.  Simples assim!
Simples assim?!              
Com a amamentação começam os acertos, os encontros e desencontros, os mitos e os tabus. Peito grande, peito pequeno – bico pra dentro, bico pra fora – leite forte, leite fraco – canjica ou cerveja preta – canja de galinha por meses ou uma refeição balanceada – cólica do bebê, comida temperada ou só com uma pitada de sal? Meu Deus! Isso tudo não pode estar acontecendo em um tempo só, afinal o jogo só está começando e a mamãezinha já está ofegante, cansada e estressada.
                A mãe não é indiferente a nada, e, logo se questiona se algo não vai bem: será que fiz algo errado?
Não há dúvida, que amamentar é dar ao bebê amor, carinho e proteção, mesmo por que esse chavão já é bem conhecido e divulgado. Pelo menos entre os profissionais de saúde. Amamentar é tudo isso, quando tudo vai bem, ou seja, quando a díade mãe-bebê se encaixa, e, a vida segue sem maiores problemas.
O caldo entorna, ou, o porco torce o rabo, quando o aleitamento não flui como o esperado, e, o ato de amamentar se torna um inferno astral, corporal e emocional, tanto para a mãe, quanto para o bebê. Afinal uma relação de encaixe só pode ser boa, se for satisfatória (legal) para a dupla.  Quando o encaixe não acontece, a culpa pode inundar os pensamentos da mãe, e, o pior de tudo, o bebê fica receptivo as ansiedades da mamãe, e, o relacionamento tende a tornar-se conturbado. Portanto, parece mais humano encarar a amamentação como algo pertencente não só a biologia humana, mas também como algo que é específico de cada mulher, e, como tal, subjetivo à sua própria história de vida.
É preciso entender como essa mulher/mãe vivenciou o processo de amamentação em sua família de origem: foi prazeroso e espontâneo para sua avó, mãe, tias, primas ou a rede social? Esta mulher está inserida em uma rede de apoio a amamentação? Profissionais competentes e abertos estão a sua disposição?
Ás vezes a mamadeira pode ser uma opção saudável e inteligente quando o encaixe “mamatório” não vai bem e todos os métodos falharam. Acredite, por vezes pode falhar – o ser humano não é uma equação matemática.
Alimentar um bebê com mamadeira, de maneira tranquila e serena, com as faces descontraídas e sorriso nos lábios, é preferível quando a dor nas mamas é intensa, o peito sangra e o choro é contido em função do sacrifício de ser mãe, e, de padecer no paraíso.
Amamentar, pode ser encarado como um tango tradicional entre parceiros que nunca se viram, ou, apenas dançaram por uma única vez. Ambos estabelecem uma “milonga” até encontrarem os passos e o ajuste perfeito. É uma adaptação recíproca, que exige tempo, preparo e reparo. Porém, quando os passos se interagem e a entrega acontece, o final é perfeito.
De início há rodopios intensos e dramáticos. Lamber e sugar o mamilo materno parece complicado, difícil.
Como é mesmo que se faz isso?
Eu não me lembro de ter feito isso na barriga da mamãe!
Para alguns bebês, de imediato, é uma forma de sugar a vida e vibrar por ela. Para outros é uma tentativa de restabelecer o prazer vivido dentro do útero. Sem deixar de mencionar, que para certos bebês é tão somente a alegria de estar perto da mãe, sentir seu calor, seu cheiro, e, levitar por instantes dada a emoção de estar nos braços de alguém, que pode abrandar o frio, o medo do desconhecido, e, o desejo de estar com alguém tão conhecido.
Amamentar é como namorar nosso companheiro. No início precisamos estar sozinhos, nos acarinhando, não nos importamos com o tempo - não temos pressa para que termine o beijo.  A “pegada” faz toda a diferença.
Com os bebês as coisas são mais ou menos assim. Não importa se o bebê mamou quinze minutos ou mais, não importa se ele adormeceu no peito ou se ele arrotou e dormiu no berçinho. O que importa é a ligação amorosa e afetiva constituída entre mãe e filho.
Enfim, o que estou querendo dizer, é que mãe e bebê, de início, precisam de privacidade, tempo, intimidade, comunicação corporal, abrigo, calor, e, tudo isso e um pouquinho mais, para que o aleitamento se institua e o leite passe a jorrar. A lactância permite a mulher se conectar aos seus aspectos mais naturais e primitivos, e, auxilia a mãe e o bebê a se posicionarem num tempo fora do tempo.
O racional e o intelectual dão vez ao emocional e ao intuitivo, e, a recém mamãe não precisa se defender de nada e nem de ninguém. Precisa apenas estar onde está - disponível para seu bebê.
Dar o peito, dar de mamar, aleitar, amamentar é tudo isso e provavelmente muito mais. Está além!
É deixar emergir os instintos e desejos mais profundos de cuidar da cria – é lambê-lo com todo o carinho e respeito. É estar disponível, como outras mamíferas, a se apegar e cuidar do bebê recém chegado, gritante de fome, de amor, de carinho e de aconchego.
Amamentar é retomar a ecologia da vida – é voltar ao que fomos e estarmos de mãos dadas com a mãe, avó, bisavó e tataravó natureza. É deixar os bebês penetrarem num mundo de sabores, cheiros, texturas, ritmos e cores.
Não nego que algumas mulheres precisam de apoio para superar as dificuldades da amamentação, e, para tanto contamos com profissionais “cobras” no assunto: enfermeiras, fonoaudiólogas, e, outras tantas, que se dedicam a esse assunto com muito carinho e competência, dispostas a minimizar os embates desse processo.
A amamentação é tema para diversas discussões.
É um assunto, que ao mesmo tempo, que é visto como natural, é também polêmico. Tudo isso por que amamentar não é só por o peito para fora e dar para o bebê. É muito, mais muito mais do que isso, é técnica e sentimentos, que estão envolvidos nessa “ligadura” mãe-bebê.
Amamentar pode ser entendido como uma das primeiras formas de diálogo entre duas pessoas tão íntimas e desejosas de se encontrar e vincular. Amamentar é oferecer nutrientes vitais a quem se ama. É estreitar laços amorosos, é compartilhar de proximidade e de afetos – é uma forma da mãe recompensar a si e ao seu filho pelo primeiro “corte” ou separação que o ser humano sofre. O corte do cordão umbilical.  A amamentação restitui uma nova forma de conexão, não mais mãe - placenta – cordão umbilical – bebê, e sim, o deleite de se olhar olho no olho, sentir o corpo a corpo e acima de tudo, estabelecer uma ligação pessoa a pessoa.